Pulmão

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"Uma resenha sobre saúde e doença respiratória para divulgar os principais temas da pneumologia ao público em geral."

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Cigarros eletrônicos e asma: é seguro?

 


Vaporizar (vaping) é o ato de inalar e exalar um vapor produzido por cigarros eletrônicos ou dispositivos similares que não produzem fumaça. Cigarros eletrônicos usam um dispositivo alimentado por bateria para aquecer uma solução contendo nicotina, aromatizantes e outras substâncias que são inaladas como vapor ou aerossol. Tais dispositivos atingem temperaturas entre 300 e 400ºC, o que leva a uma combustão incompleta de substâncias altamente nocivas para o organismo.

Quando aquecido dentro do cigarro eletrônico, o líquido se transforma em um aerossol que é inalado para os pulmões. O líquido contém substâncias químicas que, quando inaladas, podem causar ou agravar doenças pulmonares, incluindo asma. A composição do aerossol do cigarro eletrônico é definida pela temperatura e pelo conteúdo do líquido aquecido, como propilenoglicol, glicerina, aromatizantes, nicotina e outras substâncias em concentrações variáveis.

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas, caracterizada por exacerbações e remissões, que afeta de 1 a 18% da população mundial. Diversos fatores contribuem para o agravamento da inflamação das vias aéreas em pacientes asmáticos, sendo o tabagismo um dos principais. Fumantes asmáticos sofrem de mais sintomas e exacerbações, desenvolvem um declínio mais rápido na função pulmonar e têm um prognóstico pior do que asmáticos não fumantes.

O uso de cigarros eletrônicos de qualquer tipo pode causar ou contribuir para doenças pulmonares. A maioria dos dispositivos de vaporização contém substâncias potencialmente tóxicas, incluindo produtos químicos, metais e compostos orgânicos voláteis, alguns dos quais estão associados ao desenvolvimento de asma e danos celulares.

Usar cigarros eletrônicos é prejudicial à saúde pulmonar

Um estudo recente demonstrou que pessoas que usam cigarros eletrônicos têm um risco maior de apresentar sintomas de asma, como tosse, chiados no peito, secreção no peito e falta de ar. Certos componentes dos cigarros eletrônicos foram associados a esses sintomas. Pesquisas mostram que o uso de cigarros eletrônicos por pessoas com asma agrava os sintomas da doença.

Evidências sugerem que muitos compostos existentes nos dispositivos eletrônicos para fumar podem contribuir para a patogênese da asma. A função pulmonar parece deteriorar-se na população asmática, enquanto a inflamação das vias aéreas se altera, sendo o agravamento da inflamação do tipo T-helper 2 (Th2) o efeito mais proeminente, embora não o único. O cigarro eletrônico também aumenta a frequência e a gravidade das exacerbações em asmáticos, induz toxicidade por estresse oxidativo em células pulmonares e libera citocinas pró-inflamatórias.

Vaporização pode prejudicar a capacidade do pulmão de combater infecções, aumentando o risco de pneumonia e causando crises mais graves de asma. Qualquer produto que produza a inalação de drogas ou substâncias químicas deve ser motivo de alerta para quem sofre de asma. Pacientes asmáticos devem evitar o uso de cigarro eletrônico.

 


sexta-feira, 28 de maio de 2021

Tabagismo e Covid-19: o que há de novo?

 

No próximo dia 31 de maio, comemora-se o Dia Mundial Sem Tabaco. A data costuma ser marcada por intensas campanhas de combate ao fumo e muitos eventos que ajudam a discutir o assunto. No entanto, trata-se de mais um ano em que a abordagem acontece dentro do contexto da pandemia de Covid-19. Desse modo, queremos trazer aqui um panorama atual dessa correlação. Aproveitamos, para isso, um artigo publicado na Revista Portuguesa de Pneumologia, março/abril de 2021. Encabeçado pela Dra. Claudia Pavão Matos, da Fundação Champalimaud, o artigo traz algumas considerações sobre o que se tem de resultados científicos confiáveis até o momento, além de apontar condutas a serem adotadas pelos profissionais.

É importante se ter claro que o tabagismo é comprovadamente um fator de risco para diversas doenças, incluindo cânceres, doenças cardiovasculares e respiratórias, além de diversas doenças crônicas e que, essas mesmas doenças, são fatores de risco para morte por Covid-19. A queima dos componentes químicos do cigarro resulta em uma fumaça tóxica que funciona como imunossupressor, ou seja, deixa os indivíduos mais vulneráveis às infecções. Há, inclusive, estudos que apontam uma probabilidade 34% maior de fumantes desenvolverem doenças como a influenza em relação aos não fumantes, também de maior risco de internação, além de risco maior de mortalidade por outros coronavírus.

Alguns hábitos podem tornar os fumantes mais propensos ao desenvolvimento e disseminação de infecções. Entre esses hábitos podem ser citados o contato frequente entre mão e boca (uma das principais vias de infecção) e o compartilhamento de produtos de tabaco, como cigarros eletrônicos e narguilé, por exemplo. De acordo com o artigo português, um estudo recente, realizado entre adolescentes e jovens adultos, mostrou que o diagnóstico positivo para Covid-19 foi: 5 vezes mais provável entre pessoas que sempre utilizaram cigarros eletrônicos e 7 vezes mais provável entre usuários duplos.

As evidências científicas disponíveis sobre a associação entre o tabagismo e a gravidade da doença são escassas e, algumas vezes, contraditórias, mas a OMS alertou para que se tenha "cuidado ao ampliar alegações não comprovadas de que o tabaco ou a nicotina podem reduzir o risco de COVID-19", tendo em vista que alguns estudos recentes, não revisados, trazem alegações de que a nicotina e/ou tabaco poderiam ter efeito protetor em fumantes em relação a doença. Tais alegações podem trazer sérios riscos a saúde pública por conter conclusões que não estão bem fundamentadas e por haver claro conflito ético em alguns casos, como uma pesquisa que recebeu financiamento da indústria do tabaco. No entanto, é importante ressaltar que a maior parte dos estudos apresenta problemas no que diz respeito ao tabagismo – o artigo aponta que uma recente revisão revelou que apenas 26% de 256 estudos “relataram status atual, anterior e nunca fumante, e uma alta proporção não fez distinção entre dados ausentes e nunca fumantes”.

Ainda que escassas, as boas evidências científicas mostram uma associação entre tabagismo e gravidade da Covid-19. O artigo cita três estudos de revisão que apontam nesse sentido:

- Revisão sistemática de Vardavas e Nikatara sobre 5 estudos chineses trouxe como resultado: risco 1,4 maior de risco para forma grave da doença em fumantes em relação a não fumantes; risco 2,4 maior para internação em terapia intensiva, ventilação mecânica ou morte.

- Meta-análise de Patanavanich e Glantz que incluiu 19 estudos (11.590 pacientes com Covid-19) e resultou em uma associação entre tabagismo e agravamento da Covid-19.

- Artigo de revisão recente que incluiu 8 revisões sistemáticas ou metanálises que apontou evidências da associação entre tabagismo e a gravidade da doença.

Concluindo que as dificuldades de avaliação estejam relacionadas a qualidade dos registros médicos que pode ser negligente no que diz respeito ao relatório do status de tabagismo, o artigo sugere a necessidade de “estudos populacionais bem desenhados, controlados para outros fatores de risco” para ajudar a resolver a questão. Além disso, a cessação do tabagismo ainda é considerada importante para a redução da transmissão e gravidade da doença – o que torna as medidas para redução do tabagismo essenciais também para o controle da pandemia. Dessa forma, o artigo fornece algumas recomendações que podem ser seguidas

1.    -  Fazer o registro de história do tabagismo em todos os pacientes de Covid-19.

2.     - Promoção dos programas de cessação de tabagismo para todos, incluindo profissionais de saúde. Análise de CO apenas com medidas de proteção adequadas (uso de bocais descartáveis etc.).

3.     - Facilitar o uso de terapia de reposição de nicotina para profissionais de saúde que fumam durante seus turnos de trabalho.

4.     - Recomendações contra o compartilhamento de produtos do tabaco;

5.     - Recomendações para fumar apenas em áreas autorizadas;

6.     - Priorizar fumantes como grupo de risco para infecção.

7.     - Promover a cessação do tabagismo na comunidade.

8.     - Ampliar as medidas de controle do tabagismo, como as políticas que envolvem leis antifumo, controle de propaganda e marketing, além da comercialização de certos produtos fumígeros.


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